quarta-feira, 20 de maio de 2009

UMA ODISSÉIA PESSOAL ATÉ A VERDADE - Parte I

A partir de hoje, o leitor do Mídia@Mais poderá acompanhar a história e os desdobramentos da batalha pessoal de Judith Reisman, autora da obra capital "Kinsey, Crimes & Consequences", em sua luta de décadas contra a cultura que estabeleceu o destrutivo, o criminoso e o bizarro como padrões normais no campo da conduta sexual do ser humano.

Para introduzir o leitor à obra da Dra. Reisman e a esse mundo que ela descobriu nefasto, o mundo da pornografia aliado à academia, o estado, as fundações bilionárias e o big business, a Editoria do M@M escolheu o prefácio da obra que, como o título indica, traz, além da análise histórica e biográfica dos principais personagens envolvidos na trama, o alcance atingido por suas ações, na tentativa de destruir a moralidade tradicional em busca de prazer, dinheiro e poder ilimitados.

(Editoria Mídia@Mais)

INICIALMENTE, gostaria de me apresentar de modo a que os leitores soubessem algo sobre a minha vida e sobre como eu vim a descobrir os procedimentos de experimentação com crianças de Alfred Kinsey, seus dados falseados, sua moldagem da moderna educação sexual e da cultura e conduta sexual ocidental, e também para que saibam como me envolvi em audiências governamentais internacionais sobre fraudes nas ciências, abuso sexual de crianças, delinqüência juvenil, pornografia, drogas e outras questões críticas de nossa época. Tentarei tocar nos pontos da minha vida que acredito possam ser mais úteis aos leitores deste desmascaramento de Kinsey.

Nasci em 1935, chamada Judith Ann Gelernter, em Newark, Nova Jersey. Minha grande e próspera família já era de uma segunda geração de judeus americanos, de origem russa pelo lado materno e alemã, pelo lado paterno. Ambos os ramos de avós da família fugiram da perseguição na Europa, e ao desembarcar em Ellis Island, Nova York, agradecidamente abraçaram seu país adotivo e imediatamente aceitaram trabalhos humildes, criando famílias de realizadores.

Meu pai, Matthew, nasceu em Massachusetts e minha mãe, Ada, em Nova Jersey. Os Gelernter faziam reuniões de família, a cada dois ou três meses, numa casa muito grande em South Orange, Nova Jersey. Mais de quarenta adultos e dúzias de crianças sentavam-se à mesa para jantares preparados com muito gosto, observando as maneiras impecavelmente. Sem o advento da televisão, os jantares eram seguidos de acalorados debates sobre política entre meus pais e o restante da família. Meus pais eram os radicais da família. Eles acreditavam na amplamente divulgada propaganda de um mundo novo perfeito sob o socialismo ou o comunismo. Nenhum de nossos grandes jornais jamais havia trazido a público o assassinato de muitos milhões de russos pelo “Tio Joe” Stalin.

Entrementes, meu pai frequentemente fazia com que eu me lembrasse que “Gelernter” significa “o instruído” em alemão, um nome de distinção atribuído aos meus antepassados. “Sua vida deve ser em honra ao seu nome”. Tendo herdado algum talento artístico de meus pais, o que me proporcionou uma gratificante profissão quando já adulta, eu deles também herdei o amor pela verdade, a preocupação pelos impotentes e indefesos e a resistência à tirania, traços que me lançaram sobre a difícil jornada descrita neste livro.

Vivi numa época maravilhosa. Minha mãe me dava as boas vindas todos os dias e meu pai me apoiava em tudo que eu fizesse. Eu estava segura entre vizinhos, tios ou primos, como era comum à época. Casei-me e o muro de proteção em torno da minha vida resistiu até 1966, quando minha filha de 10 anos de idade foi molestada por um garoto de 13 anos, até ali, um amigo adorado e merecedor da confiança da família. Ela lhe disse que parasse, mas ele insistiu. Ele sabia que ela iria gostar, disse ele, ele sabia disso do que leu nas revistas Playboy de seu pai, a única pornografia “aceitável’ naquele tempo. O garoto deixou o país poucas semanas depois, quando veio à luz o fato de que minha filha foi apenas uma de várias crianças da vizinhança que ele tinha estuprado, incluindo o seu próprio irmão menor. Meu coração ficou despedaçado por todas as famílias envolvidas.

Eu ficaria sabendo mais tarde que este estarrecedor evento em nossas vidas era um padrão entre os infratores sexuais juvenis, tal como eles são conhecidos nos círculos policiais e judiciais.

Eu poderia nunca ter sabido nada a respeito da violação de minha filha, exceto porque ela caiu em profunda depressão. Somente após ter prometido não chamar a polícia é que ela falou sobre o que aconteceu. Depois de lhe assegurar que aquilo não fora culpa dela, eu telefonei para a minha tia, confiável e séria, que ouviu compreensivamente e então declarou: “Bem, Judy, ela mesma pode ter procurado por isso. Crianças são sexuais desde o nascimento”. Estupefata, eu repliquei dizendo que minha filha não estava buscando sexo, e então telefonei para Carole, minha amiga de escola, em Berkeley, que aconselhou: “Bem, Judy, ela mesma pode ter procurado por isso. Crianças são sexuais desde o nascimento”. Eu fiquei intrigada com essa locução, usada por duas pessoas tão diferentes e tão distantes geograficamente. Eu reconheci uma “linha partidária”, ideológica. Eu ainda não sabia, mas como uma jovem mãe, eu tinha entrado no mundo de acordo com Kinsey. Eu iria ouvir e ler “crianças são sexuais desde o nascimento” com bastante frequência. Mas finalmente, eu iria descobrir e expor as circunstâncias ocultas em torno da sua fonte.

Em 1973 sentei-me na filmoteca da CBS TV escolhendo o trecho exato do clip da Encyclopaedia Britannica, “Market Day in Old England”, que eu usaria para o meu próximo vídeo-musical para crianças. Eu era uma produtora de vídeos-musicais para o programa “Captain Kangaroo”, o mais querido, confiável e duradouro programa de televisão para crianças nos Estados Unidos.

Jim Hirschfeld, o produtor de “Captain”, me colocou para trabalhar logo depois que viu amostras de minhas produções de vídeos-musicais anteriores, para estações de TV em Wisconsin, em Ohio, além de outros trabalhos, que incluíam material educativo para vários museus de arte. Naqueles dias, eu estava muito preocupada quanto ao modo pelo qual as imagens impactavam no cérebro, no intelecto e na memória.

Jim era um homem gentil, cortês, e um pai dedicado, de modo que ele me fez amplas concessões para que eu trabalhasse a partir de minha casa em Cleveland. Eu gravava num estúdio local, ilustrava as canções e enviava o produto final para Nova York. Sem nenhum agente, dependendo apenas do talento que me foi dado por Deus, eu estava no topo do meu campo de trabalho. Também estava profundamente impressionada pelo fato de que o sistema americano de recompensa pelo mérito tivesse tornado isso possível. Então, um dia Jim chamou-me ao seu escritório e com relutância, mostrou-me um relatório gerado por computador. Um grupo de teste composto por crianças foi estudado, usando uma câmera oculta para acompanhar os movimentos de seus olhos. Jim assegurou-me que, ainda que ele apreciasse muito as minhas cuidadosas melodias, o anunciante queria os olhos das crianças grudados na tela da TV. Sem as mães controlando o seletor de canais, as crianças agora assistiam televisão sozinhas, mudando do “Captain” para desenhos animados. Eu teria de acelerar o tempo de minhas melodias para competir com a ação rápida e a crescente violência dos desenhos animados de outros canais. Bob Keeshan (o “Captain”) ficou aflito com isso, tanto quanto Jim, mas não tínhamos escolha, disse ele.

Eu me vi sem vontade ou incapaz de produzir para crianças daquela maneira. Porém, nem tudo estava perdido. Com os excelentes royalties que recebi do programa, eu poderia voltar à universidade em busca de um doutorado, estudando os efeitos da mídia de massa. Tendo passado os últimos quinze anos como esposa de professor universitário, sabia muito bem tanto da importância que o mundo dava aos que tivessem o título de doutor, quanto do frequente desapontamento diante daquilo que eu intimamente considerava falta de curiosidade intelectual e vigor no meio da comunidade educada. Eu achava as festas e conversas do corpo docente de alguma forma carentes de um senso comum básico, e considerando todos os seus títulos, a maioria dos membros da academia parecia apreciar o distanciamento da realidade da maioria.

Meu trabalho em museus de arte e minha experiência na televisão deixaram-me preocupada pelo fato de que as crianças estavam sendo influenciadas, reconfiguradas e verdadeiramente mudadas, uma vez que imagens e outros estímulos excitantes diariamente alteravam a estrutura mesma do cérebro da criança receptora. Se um programa prestigioso e responsável como o “Captain” teve de acelerar seu formato nos dias de Leave it to Beaver[1], o que aconteceria nas décadas por vir? Que tipo de crianças a TV estava moldando e de que forma essas crianças alteradas mudariam nossas instituições de educação, teologia, governo, direito, medicina, família – e a própria mídia de massa?

Determinada a obter um doutorado em comunicação, entrei na Case Western Reserve University, em Cleveland, a fim de estudar os efeitos da televisão e descobrir, para minha grande surpresa como uma preocupada profissional da mídia que, por volta de 1972, a toxicidade da televisão já tinha sido bem documentada pelo relatório do Surgeon General[2] acerca da violência na televisão.

Ao ignorar as descobertas mais duras e contando que os “guardiões dos portões” não relatariam os fatos, a mídia de massa descontou e escondeu com sucesso os perigos de sua atividade. O fato de que já existia um conjunto de pesquisas sobre os efeitos da televisão, ainda que ignorado, fez com que eu mudasse o foco do meu trabalho de doutoramento, especialmente depois que testemunhei o que poderia ser chamado de preocupante experimento não-monitorado de comportamento verbal versus não-verbal.

Em uma de minhas turmas, um jovem estudante de comunicação, cuja noiva tinha acabado de deixá-lo, tinha montado o script de uma produção de vídeo usando fotos explícitas da Playboy, Penthouse, Hustler e de revistas similares. O Dr. Lowell Lynn, o professor do curso, assegurou-me que todos os estudantes que estavam trabalhando na produção deram consentimento prévio ao seu conteúdo. Eles não tinham “nenhum problema” quanto às fotografias, disse Lynn, e depois que os risinhos nervosos iniciais diminuíram, o grupo de estudantes, normalmente vivazes, fechou-se em completo silêncio. Estranhamente e enquanto nenhuma das fotos de sexo tinha se encaixado corretamente no vídeo, todas as estudantes trabalhando no projeto, da diretora à equipe de câmera, negaram verbalmente que as fotos as perturbassem de qualquer forma. Este foi um surpreendente estudo sobre descolamento da emoção genuína da realidade, uma vez que as estudantes estavam obviamente transtornadas pelo tema e conteúdo da produção.

Isto é, elas estavam tão desconfortáveis que nenhuma delas conseguia assistir aquilo que tinham concordado em filmar. E ainda assim, cada uma delas negou sua reação e culpou as outras por “não olharem” para as fotos de sexo. Eu fui embora pensando – se mulheres e garotas estão sendo expostas a essas imagens mundo afora, um número significativo de mulheres e garotas, também e necessariamente, estarão negando emoções e aversões bastante reais.

Essas imagens poderiam causar uma devastação nas delicadas relações entre marido e mulher, pensei.

Uma vez que eu tinha filhas e queria vê-las felizes e casadas com homens bem ajustados, decidi que eu deveria examinar melhor o assunto. O ano era 1976. Ainda sem ter nenhuma noção do papel de Alfred Kinsey na pornografia, nem mesmo o quão exatamente a pornografia “hard” e “soft” se relacionavam com o abuso sexual de crianças, eu não tinha a menor idéia de que eu descobriria o quão grave é esse problema ou de quão profundamente eu me envolveria na tentativa de resolvê-lo.

Todavia, eu já era capaz de ver as provas de como a aceitação cultural da visão pornográfica do sexo estava aumentando as taxas de divórcio e os distúrbios sexuais.

Tradução: Henrique Paul Dmyterko


NT[1]: Comédia de TV (1957-63), voltada para a família, cujo personagem título, Theodore “Beaver” Cleaver, era um garoto bastante inquisitivo, mas também frequentemente ingênuo.

NT[2]: Desde 1871, é o principal porta-voz do governo americano em assuntos relativos à saúde pública. É sempre um oficial de alta patente da marinha americana e é o chefe do Office of the Surgeon General (OSG).

Fonte: http://www.midiaamais.com.br/cultura/301-uma-odisseia-pessoal-ate-a-verdade-parte-i

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